learning to live.
Fragmentos de coisas vividas, não-vividas, imaginadas e esquecidas.

Perfil

Ananda A.
Faz psicologia pra tentar entender cabeças, escreve porque não cabe tudo nela, talvez faça artes cênicas por não saber dançar. Mas por enquanto fica tudo (?) nesse blog.

parcerias.
Reuben (coluna)
Reuben
Laila
Luh
Júnior Borges
Alanna
Iris
Cau
Flavita

links.
petit, le touriste.
Cronópios - Poesia
Cracatoa simplesmente sumiu!

posts mais antigos
arquivo



Quarta-feira, Março 26, 2008

- Eu queria você.
- Agora?
- Deu saudade daquele tempo...
- Sei como é. De vez em quando dá mesmo.
- Então agora é de vez em quando.
- Tava fazendo o que?
- Tava tendo uma palestra sobre drogas. Eu vim pra aula prática.
- Você não muda nunca...
- Aquele tempo era fantástico.
- A gente só tem certeza quando acaba.
- Por isso eu ainda gosto dessa dúvida...
- Eu tenho certeza.
- Essa é a nossa diferença.
- Acho que não estamos falando sobre o mesmo assunto...
- É que eu estou bebendo e você fazendo análise.



Segunda-feira, Março 17, 2008

O dia em que conheci Jack-uma-perna poderia ter passado em branco, assim como a maioria dos dias que eu tinha vivido até então. Andando pela Augusta, com ódio da vida e seis reais no bolso, vi um cara sentado numa mesa em um boteco lotado e pensei que era um desperdício uma só pessoa ocupar uma mesa num lugar lotado, ainda mais quando a pessoa tem somente uma perna. Preconceitos e percepções de lado, convidei-me para dividir a mesa e uma cerveja com ele. Depois de uma cerveja, algumas doses de cachaça e alguma intimidade, começamos a compartilhar algumas informações sobre nossas vidas, que tinham se cruzado aparentemente por coincidência numa noite tão cotidiana como as das garotas de programa da quadra seguinte. Não falamos sobre futebol, nem sobre mulheres, muito menos sobre a vida alheia. Também não falamos sobre a cotação do dólar, a bolsa de valores ou sobre a disputa entre Obama e Hillary Clinton. Naquele dia simplesmente nos limitamos a falar sobre viver e suas coincidências, se é que há alguma limitação ou coincidência nisso. Foi assim que fiquei sabendo que aquele homem que dividia a mesa comigo se chamava Jack e o porquê de ele ter uma perna.
Não é história das mais comoventes, mas bem pensei que merecia um filme, já que tinha visto em algum lugar um tal de Meu Pé Esquerdo. Jack poderia protagonizar Minha Perna Direita com a facilidade que uma mulher tem para posar na Playboy depois de um Big Brother. Como não faz parte de seus planos ser ator com quase cinqueta anos e muito menos enviar sua história para alguém, decidi contá-la a fim de imortalizar pelo menos em palavras a história mais louca e mais livre que já presenciei, uma vez que acredito que só haja liberdade na loucura.
Jack-uma-perna ficou conhecido assim depois dos seus vinte e dois anos, quando resolveu andar com suas próprias pernas. Ou perna, assim no singular. Durante toda a sua vida tinha aceitado imposições familiares, sociais e do seu único chefe, com o pensamento de que a vida era assim mesmo, fazia parte do ciclo nascer-viver-trabalhar-casar-morrer e que ele poderia viver nos finais de semana. Mas ninguém vive de finais de semana, exceto balconista de balada. Sua ilusão era achar que a vida era aquilo: uma cervejinha com os amigos do trabalho no sábado, almoçar na casa da avó no domingo de manhã e ir à missa de noite. Mas, repetindo: ninguém vive de finais de semana. E não viver cansa.
Para coincidir com uma data importante, resolveu dar seu maior porém mais curto passo em 17/02/1981, nascimento do futuro ícone de uma geração, a loira-burra-porém-gostosa Paris Hilton. Longe dos paparazzi e da imprensa, Jack trancou-se em seu quarto, onde passou algumas horas sangrando e outras desacordado. De lá saiu com dois embrulhos: um de quase um metro e outro pequenininho, acompanhados de dois bilhetes endereçados para sua mãe e para o seu chefe, respectivamente.
"Querida mãe,
essa perna foi sua durante vinte e dois anos. Se não for egoísmo demais, peço ficar com a outra.
Meus passos nunca foram, de fato, meus. Agora a senhora tem três pernas e pode dividi-las com meu pai.
Desculpa estar faltando um dedo, é que este tem outro destinatário."
Para seu chefe, escreveu:
"Sr. B.C.,
estou lhe enviando meu dedão direito. Agora a sustentação da minha perna estará sob sua direção,
pois não há equilíbrio sem este dedo. Se ainda assim não for o suficiente, resolva-se com a minha mãe,
detentora do complemento do meu membro inferior direito.
Espero que o senhor consiga ver que não se alcança o equilíbrio próprio desequilibrando os outros."
Foi assim que Jack-uma-perna conseguiu sentir o gosto de caminhar com sua própria perna. Era apenas uma, mas era sua.

Quarta-feira, Março 12, 2008

- E agora? E agora, o que eu penso antes de dormir?

Estranhos estrangeiros entram em cena quando as cortinas se fecham, tentando começar do zero o espetáculo nunca terminado. As vaias da platéia não interferem na continuação. O personagem-boto encontra-se cercado em seu mar de lágrimas, vindas dos tentáculos de Medusa-morta. É hora de trocar a alma por pernas. Mas as pernas nunca serão de fato suas. Antes disso é preciso desgarrar-se das correntes que nasceram com você. Passo número um. Sem pernas. Passo número dois: depois do primeiro você não estará no mesmo lugar. A fila que não anda, o tempo que não passa, a inocência que não amadurece. Já são quatro da tarde e quatro painkillers.
Como se Frida Kahlo se dispusesse a responder:

Lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace.

Lembre-se: os finais são coisas inventadas, pois as histórias, as verdadeiras, nunca acabam.