learning to live.
Fragmentos de coisas vividas, não-vividas, imaginadas e esquecidas.

Perfil

Ananda A.
Faz psicologia pra tentar entender cabeças, escreve porque não cabe tudo nela, talvez faça artes cênicas por não saber dançar. Mas por enquanto fica tudo (?) nesse blog.

parcerias.
Reuben (coluna)
Reuben
Laila
Luh
Júnior Borges
Alanna
Iris
Cau

links.
petit, le touriste.
Cronópios - Poesia
Cracatoa simplesmente sumiu!

posts mais antigos
arquivo


Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

Os planos têm ficado cada vez mais distantes, assim como os sonhos que alimentamos um dia. A esperança de que tudo pudesse ser diferente com o passar do tempo vai ficando para trás, porque somos os mesmos. Já não há para que se desesperar: é tudo esperado. Todo começo não é de fato um começo porque não deixamos a coisa crescer por comodidade de mantermos antigas raízes fincadas. Só que as raízes apodrecem: a que não consegue respirar por ter outra em cima e a que está tentando nascer, porque não há quem a regue. Quando o "o que eu fiz de errado?" é a única coisa que sobra em cima do travesseiro talvez seja hora de pensar na dor que não é sua mas é culpa sua. Se a solidão é a sua melhor companhia o caminho está sempre certo, embora ela venha acompanhada de uns quilos extra de peso na consciência - para os que conhecem o significado real dessa palavra, e não o da consciência-induzida. Às vezes pedir para que os passos se encaixem em uma mesma direção pode ser cansativo, principalmente quando há calos de outras longas caminhadas, mas se o objetivo for o mesmo é possível caminhar mesmo sem pés. É o que, sinceramente, desejo. Mais do que nunca. Com a força da credibilidade que nunca tive. Mas eu tento acreditar até o último minuto, para que o desespero não tome conta e os olhos não insistam em permanecer pregados na manhã seguinte.

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

Apareceu quando tudo parecia ter desaparecido, como se oferecesse uma luz no fim do túnel em troca da vida que nem é minha. O instante em que você pensa que talvez ficar no escuro pode ser mais seguro é o mesmo em que a luz decide que que não importa o que você pensa, ela chegará no seu túnel. E na hora da travessia você percebe que não existe linha entre o antes e o depois, entre a luz no fim do túnel e a vida que nem é minha. Se é tão difícil fazer diferença entre eu e você talvez o resto não precise ser delimitado. Sem delimitações ou limitações você prossegue aquilo que nunca começa:
- Amanhã eu te ligo.
- Você acha mesmo que eu vou esperar ?
- Você acha mesmo que eu vou ligar ?
Uma porta se fecha para duas se abrirem. O relógio anuncia a transição de um dia para o outro com quatro zeros no visor e um bip: a essa hora cinderelas não precisam de carruagens. Mas você jura que vai trazer o sapatinho amanhã...

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Ladies and gentlemen welcome aboard.

Tudo começa quando você atravessa a linha que delimita o saguão do aeroporto e a sala de embarque. Você entrega o papelzinho do check-in, coloca os objetos dentro de uma bandejinha branca e reza pra que quando você atravesse o portal-do-constrangimento dê tudo certo, sem nenhuma sinalização de que você está portando armas ou mesmo aquela moedinha de 1 centavo no bolso. E lá vai você, sentar na cadeira mais próxima do seu portão de embarque.
Você senta, olha prum lado, olha pro outro. Provavelmente ninguém conhecido - graças a Deus - pra conversar ou encher o saco. Então você pensa que pode ligar o Ipod e ouvir algumas músicas pra passar o tempo, mas prefere poupar a bateria para as entediantes horas que estão por chegar, abrindo assim um livro que provavelmente você achou na mesa antes de sair de casa ou comprou pelo dobro do preço na livraria do aeroporto. Abre o livro, folheia as páginas, passa os dedos nas linhas. Mas você está sem saco algum pra prosseguir a leitura que fracassou antes mesmo de começar, restando assim observar os gestos declarando a impaciência dos seus colegas de vôo ou a possibilidade de tomar um cafezinho com pão de queijo pelo preço de um rodízio.
Chega a hora. Senhores passageiros do vôo companhia tal/número tal com destino a cidade tal, seu embarque está sendo realizado através do portão tal. Você discretamente se levanta pra disfarçar a ansiedade e desloca-se para o final da fila, conferindo o número do vôo e o assento. Mais uma vez você entrega o papelzinho, atravessa um corredor e espera a sua vez de colocar os pés na aeronave. Chegada a sua vez, basta apenas conferir mais uma vez o número da poltrona e dirigir-se a ela torcendo para que não sente um gordo espaçoso, uma senhora com criança-chorona-de-colo ou aquele tão indesejado ser humano que ronca.
Você senta na poltrona do corredor, torcendo pra que sente um Tyler Durden do seu lado. Cinco minutos depois, chega aquela senhora lotada de sacolas pedindo licença. Você educadamente levanta, forçando um sorriso amarelo pra não criar inimizade antes do primeiro minuto de vôo. Logo depois senta o senhor gordo, espaçoso, roncador e, como se tudo isso não bastasse, peludo como um sheep dog. Você tenta olhar pra cima, pega o Ipod e está pouco se importando se a bateria vai acabar ou não, afinal, talvez você nem sobreviva ao último minuto de vôo.
Começam as instruções. As comissárias de bordo - eufemismo desnecessário para o substantivo aeromoça - com aquelas caras blasé, como se quisessem esconder o restinho da bala que comeram escondidas, pedem que você afivele o cinto e desligue seu aparelho eletrônico. Na dúvida você desliga seu Ipod, sem saber se é permitido ou não o uso daquela saída de emergência alternativa.
Ao passo em que a aeronave se desloca pela pista, você vai tomando conhecimento da sua fé até então desconhecida. Pede a Krishna, Buda, Jesus ou Alá que o avião não caia e que você chegue são e salvo ao seu local de destino.
Senhoras e senhores, decolagem autorizada. Frio na barriga instantâneo, olhar destinado à tão cobiçada janelinha, mãos comprimindo o encosto do braço. Alguns minutos e muitas nuvens depois, você finalmente dá descanço aos seus esfíncteres e solta o braço da cadeira, torcendo pra que o vôo se mantenha na mais perfeita calmaria.
Ipod ligado, encosto da poltrona na posição horizontal - ou diagonal ? - pés livres e respiração diafragmática, tudo pronto pra que chegue a melhor hora do vôo (depois do pouso): a do lanche. Dependendo da companhia aérea a ansiedade pré-lanche pode causar profunda frustração, quando você espera ao menos um sanduíche quente de presunto e queijo e a comissária vem com aquele amendoim mais amarelo que o seu sorriso desconfiado. Você pensa ao menos que vai compensar com uma coca-cola, mas, para a sua segunda surpresa: pepsi. Decepcões à parte, você verifica o travamento da mesinha e tenta relaxar novamente.
Mas, a vida é, de fato, uma caixinha de surpresas. Quando você acha que nada mais pode piorar, o espaço aéreo resolve entrar em cena. Por um momento você até cogita estar viajando de ônibus, pois nada balançaria mais. Luzes indicativas de atar cintos confirmam a tão temida turbulência. Você ata os cintos discretamente, apenas por precaução; segura o braço da poltrona, com uma força sobrenatural; cruza as pernas e ativa a contração esfincteriana mais uma vez. Você olha para o lado e a mulher-das-sacolas está com um terço na mão. Logo ao lado, o Sr. Ronco encontra-se peludamente roncando. Do outro lado do corredor, verdadeiros mestres zen pondo em prática a arte do auto-controle, com seus rostos quase que sem expressões. Deve ter alguma regra naqueles cartões que se encontram nos bolsões localizados na frente das poltronas que proiba um passageiro de compartilhar seu desespero com os outros: uma multa, talvez.
Subitamente, o ônibus sai da buraqueira aérea e passa a circular em pista privatizada, dando fim ao terror coletivo.
Senhoras e senhores, pouso autorizado. Retornem o encosto da sua poltrona para a posição vertical, afivelem os cintos e verifiquem o travamento da mesinha. Mais uma vez você repete todos os procedimentos pós-tensão e torce para que o pouso seja tranquilo.
Com as rodinhas encostadas no chão e a aparelhagem de freio ativada, você vai logo desatando o cinto, com aquela tranquilidade de quem tem o know-how da aviação, mesmo que a comissária tenha informado que os cintos devem estar atados até que as luzes indicativas se apaguem.
Senhoras e senhores, sejam bem vindos à cidade tal. Tenham cuidado ao abrir os compartimentos para a retirada dos seus pertences pois eles podem ter se deslocado durante o vôo.
Em nome da companhia aérea e da tripulação, a comissária agradece a sua preferência pela companhia que tem orgulho de ser brasileira ou concorrentes, desejando vê-lo em breve em mais um dos seus vôos.
Você dá aquela risadinha irônica enquanto repete o jargão aéreo junto com a comissária, pensando que tão cedo não vai querer enfrentar o caos aéreo. Ela pensa a mesma coisa, enquanto arruma o carrinho do lanche, respira fundo, ajeita o coque do cabelo e se prepara para o próximo Ladies and gentlemen welcome aboard.

Lembre-se: os finais são coisas inventadas, pois as histórias, as verdadeiras, nunca acabam.