learning to live.
Fragmentos de coisas vividas, não-vividas, imaginadas e esquecidas.

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Ananda A.
Faz psicologia pra tentar entender cabeças, escreve porque não cabe tudo nela, talvez faça artes cênicas por não saber dançar. Mas por enquanto fica tudo (?) nesse blog.

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Sexta-feira, Novembro 30, 2007

Cansei temporariamente de escrever viagens e histórias.

Hoje o meu lado fútil falou mais alto e eu me dei ao luxo de imaginar uma garota de unhas feitas - combinando com a capa do seu Schopenhauer's- , salto alto, cabelo bem pintado e sobrancelhas feitas. Nada muito clichê, até porque, me desculpem o pré-conceito (pós-concebido, diga-se de passagem), leitoras de Schopenhauer não costumam satisfazer essas exigências.
É quase um paradoxo ser intelectual - com todos os preconceitos que essa palavra carrega - e ser vaidosa(o), assim como parece ser pré-requisito de bons entendedores de cinema usar calças pretas com camisas listradas e óculos de aro grosso e ter uma boa fala cult pra encaixar nas situações mais inusitadas. Um fã de cinema europeu que não use roupas retrô e que não seja apreciador de um bom britpop chega a ser tão estranho quanto uma patricinha marxista.

Tenho certeza que as Amélie Poulain made in 25 de março ficam naquele dilema de como passar um blush e combinar as bugingangas com as sapatilhas sem parecer que estão indo protagonizar Legalmente Loira. Sem contar com a mania de originalidade típica de todas as criaturas que se auto-intitulam outsiders, sejam elas hippies, hypes, punks, indies, glams, gotic-lolitas e el carajo de asa. O grande lance é (ai, revelei!) que todos eles - homens, mulheres, gays, lésbicas, simpatizantes, bi-sexuais e Segueis - têm um ícone: um(a) ex-nerd que fez algumas tatuagens no corpo e tira umas fotos pagando de wild, alguém do interior de SP que manja de photoshop e cobre suas imperfeições com o mais fajuto difuse glow ou até mesmo o Chorão, do Charlie Brown. Aí é muito fácil copiar o estilo alheio, fazer a tatuagem igual no outro braço e sair por aí querendo cobrar direitos autorais.

Trocando essa besteira toda em miúdos, só me dói na vista (principalmente) as Legalmente Loira presas num tamanquinho 34 de Amélie Poulain tendo que falar de Bakunin enquanto a língua tá coçando pra falar daquela bolsa que viu na liquidação do shopping. Talvez seja muito difícil ter momentos Paris Hilton quando se escolheu o mosteiro Hitchcock...




Sábado, Novembro 24, 2007

Vontade de falar da nostalgia que tem me acompanhado esses últimos dias, da sensação de solidão-induzida que blind melon me traz, da sensação de merecer pagar pelo que se faz, do aperto no coração de pensar que os dias passam mais rápido quando o final do ano se aproxima, do vazio que o dia antes do aniversário me traz, da vontade de estar estendida em uma toalha no ibirapuera vendo todas aquelas pessoas caminhando, do cansaço de não fazer nada, de não ver as coisas como elas são de verdade, de me enganar um pouco mais com tudo, de ser mais ingênua, de falar menos quando não consigo me controlar, de sumir por uns tempos.
Mas não. Hoje vou deixar minhas vontades um pouco de lado e ir lá fora, viver um pouquinho.

Sexta-feira, Novembro 09, 2007

Queria que você soubesse que se hoje sou dessa maneira não é pela liberdade que você me deu, mas por não termos criado vínculos afetivos suficientes. Falta de regra não faz ninguém se perder, mas sem amor ninguém se acha. Talvez seja mais fácil se culpar por ter dado demais do que por não ter dado. Desculpa ter que contrariar mais uma vez, mas se sou assim, da maneira que você tanto reclama, é por falta. Falta de companheirismo, não de limites. Falta de conversa, não de palmadas. Não adianta tentar se culpar pelo que você me deu quando seu erro foi não ter me dado, não ter estado comigo quando eu precisei, não ter me abraçado quando nenhum braço do mundo ocuparia o seu lugar, não ter me perguntado os motivos ao invés de vomitar seus ódios empoeirados em cima de mim. Eu bem sei que viver não permite ensaios e eu fui a primeira, mas certos erros são pesados demais para se levar na bagagem quando seu discurso é insustentável e cheio de crateras. Você me disse pra eu aprender em casa porque na rua vem tudo à força, você me ensinou que quem ensina é a vida, mas a vida lá fora. A vida aqui dentro só reclama, hostiliza e dá puxões de orelha. Você sabe que hoje, apesar de tudo, não te culpo porque sei que nem tudo foi intencional, mas certas coisas poderiam ter sido evitadas. Os anos de convivência me trouxeram características suas por osmose, e as que eu mais detesto. O meu desprezo, a minha indiferença, a minha hostilidade, as minhas formas de ataque são suas. É essa a minha herança. Não tenho muitas coisas boas, não sou exemplo, extrapolei o molde que você criou pra mim; mas o que eu tenho veio dessa vida lá fora, a vida que caberia a você me ensinar. Nesse ponto está a nossa maior diferença: o mundo lá fora. O que eu aprendi com ele devo a você. Às avessas. E eu, sinceramente, agradeço. Acho que não caberia naquele molde, sabe?



(Poderia ser só mais um texto, como qualquer um dos que já escrevi. A diferença é que esse não é inventado - não no sentido literal da palavra - mas tem lá suas bases. Um dia ele vai chegar até você, eu espero. Ou não. Não sei o que espero em relação a você, muito menos de você.)

Lembre-se: os finais são coisas inventadas, pois as histórias, as verdadeiras, nunca acabam.