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Terça-feira, Outubro 23, 2007
José, eu preciso te dizer que as coisas por aqui andam feias. As mesmas, porém feias. Mania de julgar loucura aquilo que é diferente, José, entendes? Era assim na casa dos nossos avós, quando brigavam por nos sujarmos de barro depois de tomarmos banho. Ninguém nunca entendeu que éramos crianças, lembras? Não podíamos ser iguais a todos eles, éramos puros, novos, não sabíamos que lavar roupa desgastava o tecido e gastava sabão em pó. E se soubéssemos, faríamos tudo igual, não é? Jogar aquelas bolinhas de barro vermelho em você me custavam boas gargalhadas.
Querido, hoje fico triste por saber que o tempo não volta atrás. Nossos avós não estão mais aqui, a casa foi vendida, o barro foi-se com a chuva. Mas aquilo tudo ficou em mim, me entendes? Ah, José, acho que tu foste meu único amigo de infância e ainda hoje o maior. Essas pessoas que tenho conhecido ao longo dos anos me julgam louca, sem moral, desconexa... ainda és tu o único que não me julga, o único que me entende sem precisar tentar. É difícil acompanhar as conversas sobre a vida de quem passa na rua por não saber o que se passa, na verdade, por nem querer saber o que se passa. Aqui as pessoas se importam muito sem se importar, José, isso é normal? Se não falo, é porque estou escondendo alguma coisa, se falo é porque gosto de fofoca. E depois a desconexa tu bem sabes quem é. Essas pessoas, não sei não...
Às vezes penso em largar isso tudo e ir pra Budapeste, o que tu achas? Mas às vezes penso que não tenho nada pra largar, e isso me dá medo. Se tivesse, quem sabe, seria tudo mais fácil. Eu poderia me sentir corajosa, quando tudo desse errado. "Pelo menos tentei, deixei isso tudo pra trás e recomecei." Mas e agora, José? Não tenho o que largar, nem ao menos tu, que é a única coisa que me resta nessa existência meio-medíocre-meio-arruinada, porque és pra mim não tu, mas uma parte estendida de mim, e não posso abandonar-me.
Fico confusa com essa gente, que é parte de mim também. São todos iguais tentando ser diferentes, todos fazem as mesmas coisas, vão para os mesmos lugares, vestem as mesmas roupas. E eu sou míope, José, pra mim não há diferença nítida, é tudo borrão e me recuso a colocar os óculos. Se a moda é verde, parte veste-se de verde, e a outra, pra tentar ser diferente, veste-se de preto. Mas será o benedito? Pensa comigo, José. Como todo mundo quer ser diferente entre iguais? Se uns pretos se misturassem com uns verdes, pronto, as coisas seriam ao menos bicolores. Mas é verde pra um lado e preto para o outro, como água e óleo. Só que água e óleo não se olham dos pés à cabeça com desdém. É frescura demais pra mim esse tipo de coisa. Quer saber? Amanhã mesmo queimo minhas roupas, pretas e verdes - porque os olhos tão programados pra essas cores - e saio nua pela rua. Só estou te escrevendo mesmo pra saberes que se amanhã sair um jornal com uma mulher nua e uma tarja preta cobrindo-lhe as partes, sou eu, José. E não precisa ter vergonha de mim: e se eu bem te conheço não terás; deixa pra esses fantoches loucos verdes e pretos, isso é trabalho deles, e não posso negar que o fazem bem demais.
No mais, mando-te um beijo, querido. E só uma recomendação: não venhas por aqui, essa poeira não baixa nunca.
Terça-feira, Outubro 02, 2007
Como dizer adeus sem ao menos ter dito oi ? Você poderia ter cruzado meu caminho naquele dia no parque, porque parques me parecem um bom lugar para conhecer alguém. Mas eu não vou a parques tem certo tempo, então você poderia ter cruzado meu caminho na escola, quando eu ainda estudava. Talvez não, talvez fosse cedo demais. Na faculdade, então ? Dizem que ninguém é sério na faculdade, só rola esse negócio de drogas e putaria. Então a faculdade não seria um bom lugar também. E no trabalho, por que você não cruzou meu caminho ? Quem sabe naquela hora que eu saí pra fumar um cigarro e tomar um cafezinho. Ou você é daquele tipo que não curte mulheres com bafo de nicotina&cafeína ? Agora, aqui estou eu, meio velha, meio amarga, sem muita coisa pra oferecer. Sem talvez acreditar nessas histórias de grande amor da vida. Quem sabe, um dia você passou ao meu lado e eu nem percebi, porque pensava nos meus problemas, pensava em como é chato envelhecer sem alguém ao lado. E você ali, passando exatamente na minha frente, sem que eu pudesse notá-lo. Você poderia ter dito um oi, não acha ? Ou ter perguntado as horas, talvez. Mas não, você se resumiu a passar na minha frente. Tava achando o que ? Que eu ia sair correndo atrás de você gritando ei-amor-da-minha-vida-espere-por-mim ? Como tal, esperava que você soubesse que aqui dentro há uma pontinha de orgulho que jamais me deixaria fazer isso. Mas não, o idiota aí foi embora. Ir embora, foi tudo o que você fez. E eu aqui, meio amarga, meio fria, meio indiferente. Meio tudo, quase nada. E você, casou/morreu/desistiu ? Sabe-se lá o que aconteceu com o suposto amor da minha vida. Ah, e quer saber ? Tomara que você tenha ficado velho, gagá, entrevado, com osteoporose, impotente... só porque, merda!, você passou ao meu lado sem sequer perguntar as horas. E hoje, ah, hoje!, hoje eu estou aqui, sentada nessa varanda-para-um, tendo que dizer adeus pra você - desgraçado - sem nunca ter dito, sequer, um oi. Mas bem que você poderia ser o encanador que vem aqui hoje à tarde, ou quem sabe, o cara da padaria. Eu não falava tão sério quando disse que estou velha demais pra acreditar em histórias de grande amor da vida. Hoje, às 16h na livraria da esquina tá bom pra você ?
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