learning to live.
Fragmentos de coisas vividas, não-vividas, imaginadas e esquecidas.

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Ananda A.
Faz psicologia pra tentar entender cabeças, escreve porque não cabe tudo nela, talvez faça artes cênicas por não saber dançar. Mas por enquanto fica tudo (?) nesse blog.

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Quarta-feira, Agosto 22, 2007

Às vezes penso que você não merecia todas as palavras duras que eu disse. Certamente, na hora, pensava o contrário. Mas, depois de algum tempo, algum longo tempo, quando você fica sozinho e vê que palavras são uma das poucas coisas que lhe restam, você pensa que não deveria ser tão duro nelas. Palavras não voltam atrás, o tempo não volta atrás. Mas a memória volta. A memória é sempre atrás. E pela minha memória, peço desculpas. Talvez você não tenha esquecido, porque a gente sempre faz questão de guardar lembranças duras; e mesmo que você ache que esqueceu, minhas palavras duras estão em algum lugar aí na sua memória, ou inconsciente, se você for algum freudiano. Enfim, tem um pouco meu em você. Tem um pouco da minha dureza em você. E isso dói. Em mim e na sua memória. Quantas vezes já pedi desculpas pelo pensamento, quantas vezes forjei diálogos, quase sempre me desculpando. Quase sempre querendo ouvir você. Quase sempre querendo falar mais do que deveria. Talvez depois quisesse voltar atrás, mas dessa vez não pelas palavras duras. Menos mal, quem sabe. Quem sabe também eu nunca chegue a falar isso tudo diretamente pra você, quem sabe você nunca queira ouvir. Você não me desculparia porque o seu orgulho falaria mais alto. Orgulhos sempre falam mais alto quando deveriam ficar calados. Mas eu sei que, quando você chegasse em casa, tentaria refazer tudo o que eu disse, tudo o que você (não) disse, e finalmente as palavras certas viriam se encaixar nas minhas frases. As palavras certas só aparecem depois que a gente precisa usá-las. É quase certo que as coisas ficariam por elas mesmas, mas só saber que você ouviu o que eu tinha a dizer já me valeria a pena. Seu sorriso olhando pra baixo e passando a mão na cabeça sempre vale a pena.

Segunda-feira, Agosto 06, 2007

Chego em casa: são 02:27 do domingo pra segunda. Em cima da cama um papel. "Alguma vez a tristeza o deixou sem palavras ?". Paro pra pensar se respondo... Seria solitário demais responder pergutas de panfletos ? Talvez sim, talvez não. E quem se importa ? Todo mundo é solitário, vez em sempre.
Me pergunto o que deixa as pessoas tristes...
- o time perder;
- brigar com o namorado;
- ouvir sermão do pai;
- o cachorro morrer;
- ficar menstruada quando todos vão à praia;
- reprovar uma cadeira da faculdade;
- ter o carro roubado;
- cancelar o cartão depois de tentar três vezes a senha;
- esquecer o aniversário do pai;
- não ter companhia pra ir pro cinema;
- ter insônia no domingo e ter que ir trabalhar na segunda de manhã;
- perder alguém querido;
- chegar atrasado;
- não se sentir bem;
- ter sono no meio de uma festa;
- cartas rasgadas;
- chances perdidas;
- palavras lançadas fora de hora;
- adiar prazeres;
- ser cortado da foto;
- descobrir mentiras;
- quebrar promessas;
- ...



O que me deixa sem palavras é ver as portas fechadas. A da frente e a de trás. Ah, e a janela também...

Quinta-feira, Agosto 02, 2007

Balanço


Março. Alemanha. Noite. 2°C.
Só havia um balanço naquela praça: corda e um retângulo de madeira. A praça mais solitária, planejada para um. O balanço inerte parecia que esperava ser ocupado por alguma criaturinha que gostasse da noite. E do frio.
O vento balançava vez ou outra a corda poída que sustentava a madeira, como se entoasse uma antiga canção de ninar alemã, algo como um "tonight you're alone, mama's not coming home" (um breve parênteses para explicar que eu não sei alemão e, provavelmente, você também não).
Aquela noite o balanço continuou vazio. A criança solitária que gostava da noite e do frio acabara de dar seu último suspiro. Fim. Pó. The End. Essas coisas que sinalizam o ponto final, o fim do túnel, você sabe. O balanço poderia dar seu último suspiro também: sua companhia se foi, partiu para outra. Outras criaturinhas certamente poderiam se balançar e passar tempo por ali, mas não aquela. Não fazia mais sentido ser um balanço se a criaturinha a quem se quer balançar não está mais lá.
O balanço acabara de dar o seu último suspiro. Fim. Pó. The End. Essas coisas que sinalizam o ponto final, o fim do túnel, você sabe. De agora em diante embalaria sua criaturinha em sonhos, e o ranger de suas cordas entoariam uma antiga canção de ninar alemã. Como se o mundo fosse apenas uma criaturinha e um balanço, se completando como o preto e o branco, a noite e o frio. Essas coisas, você sabe.

Lembre-se: os finais são coisas inventadas, pois as histórias, as verdadeiras, nunca acabam.