ladies and gentlemen welcome abord.
Tragava aquela indiferença e soltava a fumaça pelo nariz. Em parte, alguma pela boca. Outra ficava dentro, ia para seus pulmões. A conversa ao lado parecia chegar ao fim. Lembrava dos seus sonhos, e como um em especial tinha mudado parte de sua vida. A principal? Talvez. Gostava dessa idéia de sonhar, de acontecer em sonho. Outros estados não tão conscientes. Quem sabe uma relíquia do dia, de seus pensamentos. Seus anseios. Vinham por sonho. Seu passado resolvido e latente, pulsando em suas veias. Alguém não se importava. Alguém até demais. Seria aquilo lembrança só sua? Doía apenas em si? Provavelmente. Infelizmente também. Não gostava da idéia de ser apenas memória, mas tinha muitas, e doíam. Doer faz você se sentir vivo. Sentir-se vivo dói. Esses ciclos da vida. Viver. Não apenas existir. Alguém vive? Alguém vive dentro de você. A gente brinca com as palavras. As palavras brincam com a gente. Palavras doem e pulsam. Palavras são lúdicas. Você também.
Eram dez da manhã quando ele entrou por aquela porta. Ela ainda dormia, com as roupas da noite anterior e um copo de vodca barata pela metade. Acendeu um cigarro, tentando criar coragem para acordá-la e pensando nas palavras certas para dizer. Ela se mexeu de um lado para o outro do sofá, sem acordar.
O cigarro queimava pela metade enquanto a coragem nem as palavras certas vinham, e de certa forma aquilo o tranquilizava. Ele não queria ter que pedir satisfações pela noite passada, não por ela não ter atendido o celular, mas pela incerteza de ela ter dormido com outro, ou pelo menos o levado para casa.
Ela abriu os olhos, depois que ele derramou o copo de vodca barata pela metade, e disse um "que horas são?" sonolento e voltou a fechar os olhos. Mais um trago e aquele desconforto se iria com a fumaça.
Juntou o copo, apagou o cigarro, cobriu-a com o seu moletom e saiu por aquela porta. Aquele momento durou apenas um cigarro e um copo de vodca barata pela metade derramado.