quando eu nasci veio um anjo safado, o chato dum querubim e decretou que eu estava predestinada a ser errada assim. era um dia de sarcasmo no céu, e deus tava com uma dose de humor negro. e foi assim que decretou. nascerás numa cidade que odiarás, porém que fará falta dezoito anos depois. xingarás teus amigos e sentirás falta até dos mais vagabundos. cuspirás no prato que comeu e lamberás teu cuspe algumas vezes. te acharás forte e quebrarás a cara bonitamente depois. sentirás dores no pé da barriga alguns poucos dias no mês, mas que serão suficientes para te desesperares pensando nas do mês seguinte. conhecerás homens podres, mulheres insuportáveis e terás que aguentá-los por algum tempo. ficarás sozinha nos finais de semana pelo menos durante três meses seguidos. chorarás amargamente por tuas escolhas, sem te arrependeres delas. poderás comer chocolate à vontade, porque ninguém notará que engordaste. gastarás a grana dos finais de semana sem sair em interurbanos. terás a geladeira cheia de água e suco de caju. comerás em self-service até que a morte os separe. assistirás programas de televendas todas as noites. limparás a tua casa. ficarás com fome no final de semana, a menos que decidas comer no shopping. chegarás à conclusão que se silêncio fosse sabedoria, ninguém te ganhava nesse quesito. terás de ser chamada de mano, mesmo sendo uma mulher. compreenderás que meu nem sempre é pronome possessivo. ficarás de saco cheio por chegar em casa e não ter com quem conversar. perderás a hora de acordar e dormir porque ninguém te encherá o saco. terás uma conta no banco mas não terás com o que gastar dinheiro. ficarás na dúvida se sanduíche de pão sírio vai pro microondas. contarás os dias para rever a cidade chata e algumas pessoas insuportáveis. finalmente, saberás mais que ninguém que o dia não são apenas vinte e quatro horas e que dois meses são bem mais que sessenta e um dias.
depois disso, ele virou meio que de lado e deu uma puta duma risada da minha cara e disse:
"vai, ananda, ser gauche na vida!"