Aquele mundo era, de certa forma, alheio ao que os seus sentidos conseguiam captar. Um misto de ansiedade e desespero a tomavam, assim como o que ela tomava para se proteger do mundo que conhecia: o interno.
Pensou em procurar algum conhecido, algum lugar para ficar. No fundo, não queria. Estava cheia das pessoas, ia ficar sozinha.
Limitou-se a sentar, como se esperasse que todas aquelas respostas a iluminassem como é iluminado um buda. Mas nada lhe vinha, nada tomava conta dela, nenhuma resposta, nenhuma luz, nem mesmo a fome.
Abriu a mochila e pegou um caderno sem capa - um caderno-borrão - e pôs-se a escrever uma carta para conhecido algum, para nenhum remetente.
Para si? Talvez.
Ela escrevia para passar o tempo, que teimava em permanecer estático. E o desespero gritava calado dentro dela: mudança!; enquanto deixava o lápis de lado e juntava duas ou três peças de roupa para colocar dentro da mochila. Se ir sair de casa? Era inconstante demais para dizer.
Acendeu mais um cigarro e um incenso, pra disfarçar o cheiro indisfarçável do que ela sabia causar vários danos. E não se importava.
Pensamentos inquietos, mãos inquietas, lápis e paredes inquietos. Tudo parecia assumir a inquietude inerente a ela. E mais uma vez, não se importava.
Tudo que ela queria era sair daquele lugar, que parecia ter tomado sua forma, assumido seus gostos, se moldado a seu molde. Queria quebrar tudo: correntes e caras.
Fechou a porta e saiu, deixando de presente para o lugar tudo o que antes lhe pertencera.
o que eu faço quando ninguém me vê fazendo? eu sonho.
o que fazer quando já não se sabe o que fazer
e não se quer ouvir os outros mas você também não tem nada a dizer?
quando a luz no fim do túnel é um outro trem
e não dá pra sair do lugar?
meu desespero tem seu nome.