Quarta-feira, Julho 23, 2008

Desaparece só um pouquinho pra eu ter aquela estranha sensação de ser eu mesma. Tão antiga, tão clara, tão só. Quando eu ainda podia acreditar que pessoas eram pessoas, quando ainda era possível acreditar em alguma coisa. Agora só resta esta estranha sensação de ter sido tomada por uma verdade tão falsa que preciso tentar me convencer dela. Não é o que quero, nunca quis. Alguma vez no passado acreditei que pudesse haver alguma diferença, acreditei que existiam verdadeiros e falsos, bons e maus, certos e errados. Hoje? Acredito que não exista nada (além dessa vontade de sumir quando penso no que me tornei).

Me pergunto como isso pode ter acontecido tão de repente e tão sutilmente que nem me dei conta do processo. Foram as minhas escolhas? Foram os meus caminhos? Isso tudo fui eu que escolhi? Às vezes duvido. Antes tinha tanta esperança, tantos sonhos, tantos planos. Quando percebi que havia um abismo entre meus ideais e minhas atitudes foi quando me dei conta que alguns caminhos não têm volta. Tentei parar, estagnar, congelar aquela clareza para poder seguir em frente. Erro. Erro. Erro. E nunca mais houve a ponte que juntasse o presente com o futuro. E eu, no fundo, tento olhar pra cima e pensar que um dia criarei asas para fazer a ligação.

Quem decide o que é bom? Quem julga o que é certo? Você, eu ou ela? O que sempre foi certo pra mim nunca foi certo para os outros. Sempre tive consciência disso e nunca tentei ir contra. Mas depois de um tempo você se dá conta que não dá tempo de relativizar todas as verdades e o que resta é se encaixar. Não gosto do que tenho vivido, não gosto das verdades que me atingem, não me são reais. Fico pensando onde está a coragem que eu sempre tive de abandonar tudo. É hora de separar o joio do trigo: porcos não merecem as minhas pérolas.

Onde estive esse tempo todo? Por que aguentei o que não precisava? Talvez seja o preço dos meus pecados, já que dão preço a tudo. Mas nem tudo dura pra sempre, nem a desgraça. E por mais que demore, é sempre possível transformar o que sobra em alguma coisa. E é nisso que me agarro, na idéia que de em todo fim há um recomeço. E dessa vez vai valer a pena, porque o que é bom pra mim sempre foi do meu jeito. Quando tentei experimentar o contrário no que deu? Nisso. Mas, não mais. Nunca mais.




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Quarta-feira, Julho 16, 2008

- Eu gosto de estar contigo...
- ...
- Sempre tive que enganar as pessoas com quem estive, mas contigo é diferente, eu tenho que me enganar.
- Talvez seja por isso.
- A coisa que eu mais gosto nessa vida é de beber. Escrever é melhor que ficar bêbado.
- Existem coisas muito melhores.
- Como o que o teu pijama me lembra, por exemplo...
- ...
- Tem uma coisa que eu gosto mais que beber. Na verdade, eu amo.
- Tu me disse que tinha parado com isso.
- E parei, mas eu amo.
- Hum, sei.
- Tô tentando me livrar de todas as coisas que eu amo. Daqui a pouco vou te dizer tchau.




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Quarta-feira, Junho 18, 2008

Durante um bom tempo defendi que era preciso se livrar de máscaras e todo o tipo de coisa que maqueia a individualidade de cada um: achava que era preciso arrancar todo o tipo de carapuça e estereótipos que haviam se instalado sabe-se lá porquê. Hoje percebo o quão idealista e fracassado esse pensamento é, pois por mais que você queira, algumas coisas nunca mudam. Sou a favor de todo o tipo de maquiagem física e psicológica, das melhores roupas, das melhores marcas, dos lugares mais badalados, das baladas mais caras, dos amigos mais populares etc. Acho super-válida a realidade ilusória criada por algumas pessoas pra substituir o fracasso da vida real, os interesses forjados, a cultura que não existe, a base que nunca se firmou, as amizades por conveniência que (não) existem, algum sentimento barato vestido de amor, a mentira tão bem maquiada que periga parecer verdade, a vontade de ser quem finge que é...
Tentar livrar algumas pessoas desse mundo imaginário pode ser fatal, não há o que substituir. Talvez alguém pergunte por que sou a favor dessa vida-fake encenada por tantos. A resposta é simples: porque o vazio dessas pessoas apavora. Você só muda aquilo que tem. Quando não existe individualidade/personalidade é preciso maquear qualquer coisa que se chama de.

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Quarta-feira, Junho 04, 2008

o vagabundo da próxima esquina
vai estar ao seu lado
quando você menos esperar

dois dedos de prosa
com três sorrisos de lado
e a isca é puxada
como um pedido de socorro.

sonhos sinceros em uma lata de lixo
aguardando serem recolhidos
pelo próximo mendigo morto de fome

latas reviradas por passos incertos
que passaram a noite em quartos baratos
envenenando cobras alheias

à espera da próxima esquina.

você se apressa pra recolher resquícios
mas se contra fatos não há argumentos
você contra-ataca abaixando a cabeça
pra não encarar o espelho embaçado

quando virar o olhar é mais fácil
que manter a velha máscara enferrujada
é hora de olhar para trás
e desmanchar laços desatados

hora de partir
café da manhã requentado no jantar
mala vazia sobre a sarjeta
olhos fundos como bueiros

um bom jogador sempre sabe a hora
de parar e recolher suas conquistas
mesmo com o lucro zero
é melhor que sair perdendo

o vagabundo se aproxima
em cada esquina há um
mendigo, faminto por lixo
em latas de sonho

à espera da próxima esquina.






( p.s.: não lembro se já postei, quando escrevi nem nada do tipo. mas uma coisa é certa: há vagabundos em cada esquina esperando pela próxima)



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Sábado, Maio 24, 2008

Pega a tua mão e passa sobre a minha cabeça: afaga meus pensamentos com tuas mãos lavadas. Escreve na minha pele o nome do teu coração, e no meu pulso derrama tuas lágrimas. Fica em paz aonde for, teu silêncio faz memória nos meus dias tristes. Agora as flores murcham na primavera que nasce embaixo dos meus pés: acima deles só o coração: teu.

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Sexta-feira, Maio 16, 2008

O mundo vai explodir em 3, 2, 1...
- Alice, acorda!

Repressão do pensamento, condicionados a calar. Histórias longas de quebra de idéias, criatividade bloqueada. Razão premeditada, camadas falsas de inteligência. Não há novidade, predestinados ao fracasso. Progresso é palavra de bandeira, não existe por aqui. Roubaram nossa identidade, apenas portamos cédulas. Padronizaram nosso raciocínio, acho que querem vendê-lo para nós mesmos! Éramos nós, agora somos deles.

O Fim do Mundo é anunciado na Sé: o homem de barba branca esbraveja o que ninguém ouve. "O mundo acabou". O tempo de desconstrução é ao contrário: do fim para o começo. O tempo regressivo engole a destruição do real para o irreal (...)

- WAKE UP, ALICE!


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Sexta-feira, Abril 11, 2008

Fazíamos questão de nos mantermos assim: sensatos e distantes, pois sabíamos que próximos machucaríamos um ao outro mesmo sem querer. Eu pensava nela e ela pensava em mim, vez ou outra, relembrando o tempo que interrompemos algumas vezes por banalidades e fatalidades. Isso foi em 95, quando conheci a minha garota de cabelos ruivos e olhos castanhos, com quem vi alguns outonos e poucas primaveras. O nome dela era Nina.
Ela era pra mim como nada tivera sido antes. Eu respirava, suspirava, transpirava, sonhava e deglutia Nina. Ela me entendia antes mesmo que eu começasse a falar, principalmente quando o assunto era outras mulheres. Nina nunca me cobrou nada, morava em sua casa e aparecia quando queria. Eu preferia assim, podia ter minha vida mas sempre que precisasse teria alguém ali, pra me entender sem ouvir, ouvir sem entender y otras cositas más.
Nunca disse que a amava, e nunca ouvi isso dela. Não planejamos filhos, casamento, morar fora nem nada disso. Não sei se ela acreditava em mapa astral e até hoje não sei seu signo, só sei que era de Agosto.
O que Nina fazia quando não estava comigo? Nunca cheguei a perguntar, embora morresse de curiosidade. Não falamos sobre nossas infâncias, traumas e pesadelos. Não falamos sobre felicidade ou sobre negócios. Quando estávamos juntos aquele momento era nosso, só nosso, sem espaço para quaisquer outras coisas.
Nina sabia me deixar feliz. Ela sabia como ninguém o que me deixava alegre, e o fazia muito bem. Seus braços tinham o encaixe perfeito, sua boca idem. Nina era daquelas mulheres que todo homem quer viver com, mas quando encontra sente medo, sente que não está preparado, sente que se fosse um pouco mais velho casaria. Homens nunca estão prontos para nada, foi o que aprendi com Nina.
O dia que Nina me deixou não fazia frio. Não era feriado. Muito menos fim de semana. A minha garota ruiva me deixou numa segunda-feira de Agosto, com um bilhete embaixo da porta, seu chocolate preferido e uma fotografia. Dizia que gostava muito de mim, que tinha passado comigo os melhores momentos da sua vida, que eu era o homem com quem ela queria ter se casado, tido filhos e essas coisas. Pedia desculpas por ir embora daquele jeito, à francesa, mas seria melhor para nós dois: não machucaria tanto. Nunca consegui entendê-la como ela me entendia. Nunca consegui aceitar que ela tivesse ido embora daquela maneira.
Hoje, 13 anos sem Nina, me pego pensando nela vez-ou-outra-todo-dia. E na sua infância, nos seus traumas, nos seus pesadelos. No nosso casamento, nos nossos filhos e na nossa casa no exterior. E no bilhete-resposta que eu escrevi e nunca tive a quem mandar. Agora eu entendo porque nós, homens, nunca estamos preparados para mulheres de verdade: porque uma vez elas, pra sempre elas.

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Terça-feira, Abril 01, 2008

Há um feto preso naquela mulher que chora. Ele cresce muito, comprimindo a vida da mãe que não vai chegar a ser. Ela me mostra dois ou três exames localizando o pequeno ser que ainda não é e seu crescimento anormal comprometendo suas vidas. Não há mais lágrimas: apenas um nó no peito de quem abre mão da vida para entregá-la. Não há tristeza: embora altruísmos nunca tenham feito parte do seu repertório, aquela situação nova lhe dava a chance de fazer todos-num-só.
Ela vira para mim, como que num ato de desespero controlado, e pergunta se eu não quero ficar com a criança. Nem chego a ponderar, odeio aquele feto e desejo mais que tudo que ele morra. Não há remorso, não há culpa: somente o desejo de vida. Da minha mãe.

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Quarta-feira, Março 26, 2008

- Eu queria você.
- Agora?
- Deu saudade daquele tempo...
- Sei como é. De vez em quando dá mesmo.
- Então agora é de vez em quando.
- Tava fazendo o que?
- Tava tendo uma palestra sobre drogas. Eu vim pra aula prática.
- Você não muda nunca...
- Aquele tempo era fantástico.
- A gente só tem certeza quando acaba.
- Por isso eu ainda gosto dessa dúvida...
- Eu tenho certeza.
- Essa é a nossa diferença.
- Acho que não estamos falando sobre o mesmo assunto...
- É que eu estou bebendo e você fazendo análise.





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Segunda-feira, Março 17, 2008

O dia em que conheci Jack-uma-perna poderia ter passado em branco, assim como a maioria dos dias que eu tinha vivido até então. Andando pela Augusta, com ódio da vida e seis reais no bolso, vi um cara sentado numa mesa em um boteco lotado e pensei que era um desperdício uma só pessoa ocupar uma mesa num lugar lotado, ainda mais quando a pessoa tem somente uma perna. Preconceitos e percepções de lado, convidei-me para dividir a mesa e uma cerveja com ele. Depois de uma cerveja, algumas doses de cachaça e alguma intimidade, começamos a compartilhar algumas informações sobre nossas vidas, que tinham se cruzado aparentemente por coincidência numa noite tão cotidiana como as das garotas de programa da quadra seguinte. Não falamos sobre futebol, nem sobre mulheres, muito menos sobre a vida alheia. Também não falamos sobre a cotação do dólar, a bolsa de valores ou sobre a disputa entre Obama e Hillary Clinton. Naquele dia simplesmente nos limitamos a falar sobre viver e suas coincidências, se é que há alguma limitação ou coincidência nisso. Foi assim que fiquei sabendo que aquele homem que dividia a mesa comigo se chamava Jack e o porquê de ele ter uma perna.
Não é história das mais comoventes, mas bem pensei que merecia um filme, já que tinha visto em algum lugar um tal de Meu Pé Esquerdo. Jack poderia protagonizar Minha Perna Direita com a facilidade que uma mulher tem para posar na Playboy depois de um Big Brother. Como não faz parte de seus planos ser ator com quase cinqueta anos e muito menos enviar sua história para alguém, decidi contá-la a fim de imortalizar pelo menos em palavras a história mais louca e mais livre que já presenciei, uma vez que acredito que só haja liberdade na loucura.
Jack-uma-perna ficou conhecido assim depois dos seus vinte e dois anos, quando resolveu andar com suas próprias pernas. Ou perna, assim no singular. Durante toda a sua vida tinha aceitado imposições familiares, sociais e do seu único chefe, com o pensamento de que a vida era assim mesmo, fazia parte do ciclo nascer-viver-trabalhar-casar-morrer e que ele poderia viver nos finais de semana. Mas ninguém vive de finais de semana, exceto balconista de balada. Sua ilusão era achar que a vida era aquilo: uma cervejinha com os amigos do trabalho no sábado, almoçar na casa da avó no domingo de manhã e ir à missa de noite. Mas, repetindo: ninguém vive de finais de semana. E não viver cansa.
Para coincidir com uma data importante, resolveu dar seu maior porém mais curto passo em 17/02/1981, nascimento do futuro ícone de uma geração, a loira-burra-porém-gostosa Paris Hilton. Longe dos paparazzi e da imprensa, Jack trancou-se em seu quarto, onde passou algumas horas sangrando e outras desacordado. De lá saiu com dois embrulhos: um de quase um metro e outro pequenininho, acompanhados de dois bilhetes endereçados para sua mãe e para o seu chefe, respectivamente.
"Querida mãe,
essa perna foi sua durante vinte e dois anos. Se não for egoísmo demais, peço ficar com a outra.
Meus passos nunca foram, de fato, meus. Agora a senhora tem três pernas e pode dividi-las com meu pai.
Desculpa estar faltando um dedo, é que este tem outro destinatário."
Para seu chefe, escreveu:
"Sr. B.C.,
estou lhe enviando meu dedão direito. Agora a sustentação da minha perna estará sob sua direção,
pois não há equilíbrio sem este dedo. Se ainda assim não for o suficiente, resolva-se com a minha mãe,
detentora do complemento do meu membro inferior direito.
Espero que o senhor consiga ver que não se alcança o equilíbrio próprio desequilibrando os outros."
Foi assim que Jack-uma-perna conseguiu sentir o gosto de caminhar com sua própria perna. Era apenas uma, mas era sua.


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Quarta-feira, Março 12, 2008

- E agora? E agora, o que eu penso antes de dormir?

Estranhos estrangeiros entram em cena quando as cortinas se fecham, tentando começar do zero o espetáculo nunca terminado. As vaias da platéia não interferem na continuação. O personagem-boto encontra-se cercado em seu mar de lágrimas, vindas dos tentáculos de Medusa-morta. É hora de trocar a alma por pernas. Mas as pernas nunca serão de fato suas. Antes disso é preciso desgarrar-se das correntes que nasceram com você. Passo número um. Sem pernas. Passo número dois: depois do primeiro você não estará no mesmo lugar. A fila que não anda, o tempo que não passa, a inocência que não amadurece. Já são quatro da tarde e quatro painkillers.
Como se Frida Kahlo se dispusesse a responder:

Lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace.


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Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

Os planos têm ficado cada vez mais distantes, assim como os sonhos que alimentamos um dia. A esperança de que tudo pudesse ser diferente com o passar do tempo vai ficando para trás, porque somos os mesmos. Já não há para que se desesperar: é tudo esperado. Todo começo não é de fato um começo porque não deixamos a coisa crescer por comodidade de mantermos antigas raízes fincadas. Só que as raízes apodrecem: a que não consegue respirar por ter outra em cima e a que está tentando nascer, porque não há quem a regue. Quando o "o que eu fiz de errado?" é a única coisa que sobra em cima do travesseiro talvez seja hora de pensar na dor que não é sua mas é culpa sua. Se a solidão é a sua melhor companhia o caminho está sempre certo, embora ela venha acompanhada de uns quilos extra de peso na consciência - para os que conhecem o significado real dessa palavra, e não o da consciência-induzida. Às vezes pedir para que os passos se encaixem em uma mesma direção pode ser cansativo, principalmente quando há calos de outras longas caminhadas, mas se o objetivo for o mesmo é possível caminhar mesmo sem pés. É o que, sinceramente, desejo. Mais do que nunca. Com a força da credibilidade que nunca tive. Mas eu tento acreditar até o último minuto, para que o desespero não tome conta e os olhos não insistam em permanecer pregados na manhã seguinte.

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Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

Apareceu quando tudo parecia ter desaparecido, como se oferecesse uma luz no fim do túnel em troca da vida que nem é minha. O instante em que você pensa que talvez ficar no escuro pode ser mais seguro é o mesmo em que a luz decide que que não importa o que você pensa, ela chegará no seu túnel. E na hora da travessia você percebe que não existe linha entre o antes e o depois, entre a luz no fim do túnel e a vida que nem é minha. Se é tão difícil fazer diferença entre eu e você talvez o resto não precise ser delimitado. Sem delimitações ou limitações você prossegue aquilo que nunca começa:
- Amanhã eu te ligo.
- Você acha mesmo que eu vou esperar ?
- Você acha mesmo que eu vou ligar ?
Uma porta se fecha para duas se abrirem. O relógio anuncia a transição de um dia para o outro com quatro zeros no visor e um bip: a essa hora cinderelas não precisam de carruagens. Mas você jura que vai trazer o sapatinho amanhã...

postado por Tαngєяinє

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Ladies and gentlemen welcome aboard.

Tudo começa quando você atravessa a linha que delimita o saguão do aeroporto e a sala de embarque. Você entrega o papelzinho do check-in, coloca os objetos dentro de uma bandejinha branca e reza pra que quando você atravesse o portal-do-constrangimento dê tudo certo, sem nenhuma sinalização de que você está portando armas ou mesmo aquela moedinha de 1 centavo no bolso. E lá vai você, sentar na cadeira mais próxima do seu portão de embarque.
Você senta, olha prum lado, olha pro outro. Provavelmente ninguém conhecido - graças a Deus - pra conversar ou encher o saco. Então você pensa que pode ligar o Ipod e ouvir algumas músicas pra passar o tempo, mas prefere poupar a bateria para as entediantes horas que estão por chegar, abrindo assim um livro que provavelmente você achou na mesa antes de sair de casa ou comprou pelo dobro do preço na livraria do aeroporto. Abre o livro, folheia as páginas, passa os dedos nas linhas. Mas você está sem saco algum pra prosseguir a leitura que fracassou antes mesmo de começar, restando assim observar os gestos declarando a impaciência dos seus colegas de vôo ou a possibilidade de tomar um cafezinho com pão de queijo pelo preço de um rodízio.
Chega a hora. Senhores passageiros do vôo companhia tal/número tal com destino a cidade tal, seu embarque está sendo realizado através do portão tal. Você discretamente se levanta pra disfarçar a ansiedade e desloca-se para o final da fila, conferindo o número do vôo e o assento. Mais uma vez você entrega o papelzinho, atravessa um corredor e espera a sua vez de colocar os pés na aeronave. Chegada a sua vez, basta apenas conferir mais uma vez o número da poltrona e dirigir-se a ela torcendo para que não sente um gordo espaçoso, uma senhora com criança-chorona-de-colo ou aquele tão indesejado ser humano que ronca.
Você senta na poltrona do corredor, torcendo pra que sente um Tyler Durden do seu lado. Cinco minutos depois, chega aquela senhora lotada de sacolas pedindo licença. Você educadamente levanta, forçando um sorriso amarelo pra não criar inimizade antes do primeiro minuto de vôo. Logo depois senta o senhor gordo, espaçoso, roncador e, como se tudo isso não bastasse, peludo como um sheep dog. Você tenta olhar pra cima, pega o Ipod e está pouco se importando se a bateria vai acabar ou não, afinal, talvez você nem sobreviva ao último minuto de vôo.
Começam as instruções. As comissárias de bordo - eufemismo desnecessário para o substantivo aeromoça - com aquelas caras blasé, como se quisessem esconder o restinho da bala que comeram escondidas, pedem que você afivele o cinto e desligue seu aparelho eletrônico. Na dúvida você desliga seu Ipod, sem saber se é permitido ou não o uso daquela saída de emergência alternativa.
Ao passo em que a aeronave se desloca pela pista, você vai tomando conhecimento da sua fé até então desconhecida. Pede a Krishna, Buda, Jesus ou Alá que o avião não caia e que você chegue são e salvo ao seu local de destino.
Senhoras e senhores, decolagem autorizada. Frio na barriga instantâneo, olhar destinado à tão cobiçada janelinha, mãos comprimindo o encosto do braço. Alguns minutos e muitas nuvens depois, você finalmente dá descanço aos seus esfíncteres e solta o braço da cadeira, torcendo pra que o vôo se mantenha na mais perfeita calmaria.
Ipod ligado, encosto da poltrona na posição horizontal - ou diagonal ? - pés livres e respiração diafragmática, tudo pronto pra que chegue a melhor hora do vôo (depois do pouso): a do lanche. Dependendo da companhia aérea a ansiedade pré-lanche pode causar profunda frustração, quando você espera ao menos um sanduíche quente de presunto e queijo e a comissária vem com aquele amendoim mais amarelo que o seu sorriso desconfiado. Você pensa ao menos que vai compensar com uma coca-cola, mas, para a sua segunda surpresa: pepsi. Decepcões à parte, você verifica o travamento da mesinha e tenta relaxar novamente.
Mas, a vida é, de fato, uma caixinha de surpresas. Quando você acha que nada mais pode piorar, o espaço aéreo resolve entrar em cena. Por um momento você até cogita estar viajando de ônibus, pois nada balançaria mais. Luzes indicativas de atar cintos confirmam a tão temida turbulência. Você ata os cintos discretamente, apenas por precaução; segura o braço da poltrona, com uma força sobrenatural; cruza as pernas e ativa a contração esfincteriana mais uma vez. Você olha para o lado e a mulher-das-sacolas está com um terço na mão. Logo ao lado, o Sr. Ronco encontra-se peludamente roncando. Do outro lado do corredor, verdadeiros mestres zen pondo em prática a arte do auto-controle, com seus rostos quase que sem expressões. Deve ter alguma regra naqueles cartões que se encontram nos bolsões localizados na frente das poltronas que proiba um passageiro de compartilhar seu desespero com os outros: uma multa, talvez.
Subitamente, o ônibus sai da buraqueira aérea e passa a circular em pista privatizada, dando fim ao terror coletivo.
Senhoras e senhores, pouso autorizado. Retornem o encosto da sua poltrona para a posição vertical, afivelem os cintos e verifiquem o travamento da mesinha. Mais uma vez você repete todos os procedimentos pós-tensão e torce para que o pouso seja tranquilo.
Com as rodinhas encostadas no chão e a aparelhagem de freio ativada, você vai logo desatando o cinto, com aquela tranquilidade de quem tem o know-how da aviação, mesmo que a comissária tenha informado que os cintos devem estar atados até que as luzes indicativas se apaguem.
Senhoras e senhores, sejam bem vindos à cidade tal. Tenham cuidado ao abrir os compartimentos para a retirada dos seus pertences pois eles podem ter se deslocado durante o vôo.
Em nome da companhia aérea e da tripulação, a comissária agradece a sua preferência pela companhia que tem orgulho de ser brasileira ou concorrentes, desejando vê-lo em breve em mais um dos seus vôos.
Você dá aquela risadinha irônica enquanto repete o jargão aéreo junto com a comissária, pensando que tão cedo não vai querer enfrentar o caos aéreo. Ela pensa a mesma coisa, enquanto arruma o carrinho do lanche, respira fundo, ajeita o coque do cabelo e se prepara para o próximo Ladies and gentlemen welcome aboard.


postado por Tαngєяinє

Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

- Eu acho que eu tenho saudade de mim mesmo.
- Eu também. De ti mesmo.
- Sério? Eu não acredito.
- Não precisa, eu também não acreditaria.
- Mas eu sinto.
- Aí mesmo que não precisa acreditar.
- Pensa no maior frio do mundo? -8 . E ainda não nevou hoje...

postado por Tαngєяinє


Ananda A.
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